Blog de Regina Giora


Chaplin e um pacote de pipoca

Acho que o cinema, tanto quanto a literatura, consegue superar  as Ciências  e todas as Filosofias reunidas,  ao mostrar a condição humana, sem retoques. Não há laboratório para observamos com a riqueza de detalhes aquilo que vemos na arte cinematográfica, na prosa e na  poesia. Afinal, todos esses meios  (re) criam a vida tal qual ela é. Penso nos filmes de Bergman, Fellini, Pasolini, Costa-Gravas, Antonioni, Godard e tantos outros que marcaram minha juventude.Vou mais longe no tempo e  penso sobretudo  no grande Charles Chaplin.  Afinal, passei  bons momentos na minha infância, na querida cidadezinha do interior,  no cine Capitólio e no Cine Ódeon  assistindo Chaplin. Para mim, Chaplin é “O cara” e “A cara” do século XX. Poucos gênios conseguiram unir razão e sensibilidade com tanta maestria. Veja, que quando só havia cinema mudo ele mandava ver suas mensagens com a divina arte da pantomima e todos , todos entendiam  muito bem o que ele queria dizer. O olhar de menino, o andar desajeitado, o sorriso, a estética da indignação. Lembra-se da cena do Grande Ditador quando ele brinca com o planeta terra simbolizado por uma grande bexiga? Antológica a cena. A título de curiosidade você sabia que boa parte de sua infância foi passada num orfanato com todo tipo de privação emocional que esta condição confere?

Quem não se lembra de Luzes da Ribalta,  O mendigo , Tempos Modernos , o Grande Ditador. Esses dois últimos, são absolutamente atuais e imperdíveis. Clint Eastwood antes de produzir e dirigir Gran Fiorino deveria ter assistido mais Chaplin. Desconfio das pessoas que não riem, nem sorriem. Não há coisa séria no mundo que não possa ser feita com humor, muito humor. A condição humana sob certas condições é simplesmente risível. E não adianta chorar. “É melhor ser alegre que ser triste......”  diz a canção. Que bem que fazem os Doutores da Alegria nos hospitais.

Também desconfio daquelas que só sabem chorar. São coitadinhas de plantão que querem nossa atenção a todo custo e como são coitadinhas, sempre encontram alguém para fazer algo por elas, sem a mínima necessidade.

Todos nós temos muitos motivos para ficar tristes, em especial nos dias de hoje, onde não faltam desgraças ao vivo e a cores.  Você pode até estar contentínho, mas liga a televisão, lê jornal, ouve rádio, ou simplesmente encontra com aquele que adora uma tragediazinha, e lá vem bomba e  sua alegria vai para o ralo. Sofra, sofra muito, parece nos dizer. Sinta vergonha de se sentir feliz, quando há tantos que sofrem. Mas será que sofrem mais que eu? Ora, cada um sabe onde seu calo aperta. E todos nós  temos dores e prazeres, motivos para rir e para chorar.

Na verdade, quanto mais apegados somos,  mais sofremos (mais gozamos) pois todos os dias estamos perdendo ( e ganhando) amigos, bens, status, saúde, privilégios, força, paz de espírito, fé, dinheiro, emprego e assim vai.  É a vida.  Uma luta diária. Ninguém tem tudo o tempo todo. Observe bem aquelas pessoas que você  acha que são absolutamente felizes. Vai logo ver que falta alguma coisa, ou várias. Por outro lado, quando você reclama que é um infeliz e que não tem motivos para rir, já pensou que poderia ser muito pior. Como diz um amigo meu - sou manco, mas tenho perna e ando. E eu arremato – quase não tenho paladar mas adoro um pãozinho francês saído do forno. Um dia, terminada uma palestra, uma moça cega se aproximou de mim e disse que havia “visto” tudo que eu descrevera.

A memória. Ora, a memória. Arma poderosa de sobrevivência. Amiga nos bons e maus momentos. Com ela posso caminhar no tempo para trás e para frente. Com ela engano até Kant. Se estou triste, me lembro de momentos felizes do passado e chego a rir. Ou vou para o futuro e me vejo noutra condição. Só não dá para ficar martelando a dor para não multiplicá-la ou contagiar outras pessoas. Nos bons momentos ela me lembra de experiências desagradáveis minhas e  de outros e me dá um alerta. Mais, me faz valorizar aquilo que as vezes não estou vendo bem.

Leia Epicuro -   tão mal compreendido –se puder. Á Filosofia para ele é teoria e prática.

Vou ficando por aqui. Ótima semana .

 Sugestão? Vá escrever um poema para seu (sua) amado (a) e colocar mel nas palavras para adoçar um pouco mais a sua vida e a dele (a). Vá contar as estrelas, que em São Paulo, são tão arredias. Vá tomar um cafezinho com o amigo, o vizinho e jogar um pouco de conversa fora, porque isso também é importante.



Escrito por Regina Giora às 10h06
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perdas e ganhos

A dor da perda

 

Nascemos numa cultura que nos leva a desenvolver de forma quase obsessiva  o apego  a tudo, principalmente a pessoas, valores,   coisas.  Nada mais doloroso ,  então, quando por força do destino(?) ou das circunstâncias,  experimentamos o  sentimento de perda. Nesse  momento,  não há palavra   que sirva de consolo. Só  o tempo é capaz de amenizar o sofrimento  e transformá- lo em outro sentimento. Na vida, podemos perder o emprego, a saúde, a casa, o amor, o  status, a consciência,  a vez, enfim tudo. Mas penso que a dor maior  é quando perdemos alguém.

Quando isso acontece há uma fase de luto, necessária,  importante.  O  recolhimento é uma estratégia eficaz para que nos recuperemos da dor e encontremos forças para superá-la. O consolo recebido, por meio de palavras,  pode  até soar como ofensa, enquanto que o  silêncio pode ser um grande conforto. Basta ficar junto, estender o ombro e deixar que o tempo exerça sua função terapêutica.

Apegamo-nos, como disse, a tudo, mas   não costumamos valorizar devidamente, o que temos. Aquele ou aquilo que nos faz tanta falta hoje,  ontem parecia supérfluo ou insignificante

Há pouco encontrei uma amiga e ela me dizia: - Você  se lembra como eu reclamava do temperamento da minha mãe, que tantas vezes me aborrecia com suas dores imaginárias? Pois é, hoje chego em casa, não há ninguém que me espere ou que se sente a mesa comigo, na hora do jantar. 

Um amigo muito querido perdeu o emprego. Tantos e tantos anos de dedicação. Gabava-se, nas nossas rodas,  de nunca ter faltado ao serviço e de ter tirado férias a contragosto. Gabava-se de dedicar mais tempo ao trabalho que à  família. Pois é, foi despedido, por telegrama, sumariamente. Entrou num estado profundo de depressão,   e no ano passado faleceu.O sentido de vida daquele homem estava justamente na empresa. Aliás, ele era  a empresa. A esposa costumava me dizer que se sentia  viúva de marido vivo.

Há um 4 anos estava numa dessas lojas de jardim procurando uma estátua da famosa  Jardineira, quando notei, bem próximo a mim, um homem chorando. Surpresa, olhei para a  vendedora que discretamente,  me explicou o motivo. Um dia sua mulher foi à  loja e comprou um anjo de pedra para seu jardim. No dia seguinte, volta a pobre mulher com a estátua, pois  o marido,    fez com que ela devolvesse a peça, porque a considerou  muito “brega”.  A mulher morreu pouco tempo depois e o marido, agora, estava ali comprando o mesmo  anjo,   para colocar não no jardim de casa, mas no túmulo da esposa.

O cãozinho de estimação da minha amiga “partiu.” De velhice, diga-se de passagem. Por 15 anos  ela desenvolveu uma forte ligação com o bichinho, creio que até superior aquela que  mantinha com muitas outras pessoas.   Agora minha amiga só tem  lembranças e ainda sente uma tristeza imensa,  que aos poucos vai se transformando  em  doce saudade.

Nos anos que  se seguiram a morte de minha mãe, era comum, me surpreender comprando alguma coisa para ela e  pensando nela como se ainda estivesse viva. Como é maravilhoso  termos uma memória capaz de  dar vida aquilo que se foi!

Ora, ora, mas nem só de perdas consiste nosso viver. A cada dia estamos ganhando   alguma coisa. Esse é o tema da próxima semana “  o prazer  do ganho “. O importante é sempre saber valorizar aquilo que merece ser valorizado.

Ótima semana e um abraço fraterno

Regina Giora

 

 

 

 



Escrito por Regina Giora às 12h48
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Aspectos da liderança

Artigo - O que é ser líder?

É ser capaz de influenciar pessoas ou fatos, por meio de alguma forma de expressão. Pode ser a  palavra, o  gesto,  a ação ou outra . Há líderes em todas as esferas da  atividade humana: arte, política, história, ciência, etc.

Em geral, o líder diferencia-se de outras pessoas, por apresentar algumas características   muito marcantes. Podemos citar:  energia e  paixão que dispensa àquilo que faz, o que o leva a contagiar os  que estão ao seu redor;  determinação, dificilmente o líder desiste de seus propósitos, mesmo que sua metas pareçam difíceis de serem alcançadas; concentração, não perde o foco, ou seja não dispersa sua energia; competência, tem o domínio de habilidades específicas;   segurança, embora não seja impossível que erre, têm poucas ou nenhuma dúvida;  coragem para ousar e desafiar padrões tradicionais de comportamento,  pois o novo o atrai e é, justamente, isso que o coloca a frente dos demais;  coragem para continuar defendendo suas idéias e ideais,  a despeito de críticas; uma aguçada sensibilidade, que o faz perceber o que ainda não é percebido pelos demais e sentir o momento adequado para agir. Creio que a  auto-estima é, também, uma importante característica do líder. Pessoas que se autodepreciam, nunca chegam a ser líderes.

 

Uma comparação

Penso que o líder em determinados espaços, como na política e nas empresas,  tem a mesma função de um maestro, que identifica e rege talentos;  que conhece a obra que vai ser executada; que tira o melhor dos seus músicos, que lida com muitos instrumentos e sabe quando cada um deles deve entrar para que a execução de uma peça ser perfeita.  Isso tudo, imprimindo seu estilo, sem deixar que o grupo perca sua identidade.

 

A função  do líder

1- O  líder corporifica os valores, os níveis de aspiração, os sonhos e anseios dos seus liderados.Por isso ele é legitimado por eles. Pobre do líder que é surdo às vozes silenciosas que brotam da sua audiência.

 

2- Como desenvolver habilidades de liderança?

Não se faz um líder   de uma hora para outra. Os grandes líderes foram forjados desde a mais tenra infância. Podemos, quando muito, apontar alguns caminhos para aqueles que almejam se tornar líderes. Em tempos de globalização e competição acirrada, todas as técnicas que desenvolvam a criatividade são bem vindas. Toda empresa quer ter seu diferencial. E para isso é necessário que seus líderes sejam  muito, mas muito criativos. Desenvolver a sensibilidade é fundamental. Não basta ser  competente. Razão e emoção devem andar juntas. Nos processos criativos estão presentes esses dois elementos. Além disso, hoje mais do que nunca, precisamos de líderes que expressem sólidos valores éticos e morais. O líder precisa ser profundamente   transparente,  solidário, justo e altruísta, pois  passa a ser modelo valorizado  por muitos e sua imagem pode ser edificante ou profundamente destrutiva. Como uma empresa  pode falar em  responsabilidade social se seus gestores não se guiarem por uma filosofia humanista?

Estudar Psicologia, Filosofia, Antropologia, História, Humanidades, enfim,  ajuda muito na formação do líder. Conhecer o ser humano nos seus mais variados aspectos é muito importante, mas não só do ponto de vista teórico. É necessário partilhar  experiências com os demais.

Uma pedagogia que privilegia o ser humano na sua integralidade, com certeza, cria condições para a formação de sólidas lideranças.

 

Escrito em 11/7/2005



Escrito por Regina Giora às 11h25
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As Olimpíadas e a trajetória do herói: da antiga Grécia à China

Bem-vindos ao meu blog

Há séculos, é conhecida a trajetória de centenas de heróis e heroínas que almejam chegar ao ponto mais alto do Olimpo, onde Zeus reina absoluto. No caso das Olimpíadas, evento de caráter, essencialmente esportivo, a recompensa suprema é a medalha de ouro que lhes permite serem reconhecidos como pessoas excepcionais no esporte,  colocando-os  muito acima da média dos mortais.  Prata e bronze, só servem de consolo. As Olimpíadas representam  uma provação suprema. Para atingir essa meta os heróis e heroínas têm  de se preparar. Não basta querer chegar lá, não basta ter ouvido o chamado, um chamado especial, que os obriga a sair da rotina. Sacrifícios de toda ordem lhes são impostos, sem falar na  dedicação, determinação, esforço concentrado, competência, paixão, comprometimento, etc...,etc....Mais do que isso,  só o esforço pessoal não conta, pois eles precisam também da ajuda de seus mentores. Aí, sim,  eles podem, com segurança, empreender a trajetória de todo herói.

No caso do atleta olímpico essa trajetória  começa quando  ainda é uma criança. Ser um atleta olímpico é muito diferente de ser um excelente atleta. Dele é exigido muito mais, pois o infinitamente pequeno pode significar o sucesso ou o fracasso. E, veja,  ele leva uma nação inteira nas costas, um povo que espera que  ganhe, pois a sua vitória é  compartilhada com todos. É preciso estar preparado emocionalmente, tanto para o ganho,  como para a perda.

Na edição de 2008, realizada na China,  participaram  atletas de 204 nações, em dezenas de modalidades. Quero dizer, os melhores dos melhores de 204 nações. Muitas dessas, há décadas perceberam que o evento não é apenas esportivo. Que aspectos políticos, ideológicos e econômicos estão ali, presentes. Para isso, investiram  maciçamente na formação desses esportistas e no evento. Outros países,  continuam achando  que só o esforço pessoal resolve, que de uma hora para outra, os milagres vão se multiplicar e, do nada, lhes cairão nas mãos muitas medalhas. O investimento nas Olimpíadas é grande, mas o retorno é garantido e compensa qualquer sacrifício.

A China se preparou cuidadosamente para dizer e mostrar ao mundo, isto é, à cerca de 9 bilhões de pessoas, que será a primeira potência em breve.Politicos, empresários, intelectuais, artistas, voluntários, operários, todos trabalharam arduamente para atingir essa meta. Podem dizer o que quiserem. Que a China é políticamente fechada -  bem menos que há 20 anos; que é autoritária, diga-se de passagem  – democracia lá é palavrão,  mas também ela está mudando ao se abrir para o ocidente.

Os Estados Unidos e  muitos países desenvolvidos  da Europa, principalmente, foram pegos de surpresa. Susto, assombro, admiração, medo, inveja, um misto de emoções devem ter invadido mentes e corações de todos eles. O Cirque de Soleil (?) esteve presente o tempo todo e respondeu à  necessidade de realização do prazer  estético de um publico, simplesmente extasiado.

Nossos heróis e heroínas,   a duras penas, muito mais graças ao seu esforço pessoal, ao pai-trocínio, ao apoio de  parcos recursos de amigos e empresas, chegaram lá. Está de bom tamanho. Impossível exigir mais.  Você já ouviu falar, aqui,  de projeto político de caráter nacional na educação de crianças e jovens que inclua esporte e arte como atividades fundamentais para o desenvolvimento pessoal e institucional? Claro que não. Não existe. Quando muito aparecem ações pontuais, que aparecem e desaparecem ao sabor do ideário dos que detêm o poder econômico e político.

Ainda, perplexa, vejo que muitos  criticam os atletas porque são uns chorões. Ora, ora. É para chorar mesmo, tanto na alegria quanto na tristeza. Ótimo que chorem. “São humanos, demasiado humanos”. São razão e emoção. E é com a paixão que contagiamos os outros. Se a razão quiser aproveitar a carona, ótimo. Só razão não contagia ninguém.

Ah, mulheres brasileiras! Vocês foram notáveis. Imaginar que levou tanto tempo para que começassem a participar dos jogos! Na China, vocês fizeram “A” diferença.

Pais de Cielo, parabéns! Vocês foram exemplo. Que bom ver uma família descobrindo o talento dos filhos e tendo condições financeiras e psicológicas para    alimentar seus sonhos, sonhos que pareciam impossíveis de serem realizados.

Diego, Diego! Não peça desculpas ao povo brasileiro. Somos nós que devemos lhe pedir desculpas, pois poderíamos fazer muito mais, a começar escolhendo nossos políticos, levando em conta seus  compromisso com o desenvolvimento da nacão.

Não quero ver meu país “deitado eternamente em berço esplêndido”. Ele não é mais um bebê. Que abra os olhos e  ande com as próprias pernas, com autonomia.  Quero que ele cresça e apareça e quem sabe um dia possamos sediar as Olimpíadas e mostrar que somos mais que samba e futebol.

 

 

Sugestão de livros

“O herói de mil faces” , de Joseph Campbell

“Humano, demasiado humano”, F. Nietzsche

“Alice no país das maravilhas”, de Lewis Carroll

 

Escrito em 26/8/08



Escrito por Regina Giora às 11h12
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